Manifesto Otaku-Bolsonarista

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Manifesto Otaku-Bolsonarista

Um manifesto sobre cultura otaku, bolsonarismo e preservação cultural, com reflexões sobre massificação, imaginário, waifus e a relação entre ficção e realidade.

Whit3zin

Deus, Patria, Familia et Moë

1. Introdução

O Otakismo ruiu. Após a pandemia, com o aumento exponencial do turismo cultural dentro da comunidade otaku, turistas inclusive se orgulhando disso e se auto-intitulando “LARPers” mesmo a origem do termo tendo sido pejorativa. O TikTok foi o maior difusor do turismo cultural, e da cultura do LARP – o acesso facilitado e democratizado a edits, conteúdos, clipes, de animes, além da disponibilização do anime na netflix, que facilitou o acesso ao normie médio pois ele é um ser incapaz de piratear. Isso se correlaciona também, com a chegada em massa de esquerdistas no meio Otaku Brasileiro. Eles sempre existiram, mas eram uma minoria, pois as principais comunidades Otaku do Brasil pré-pandemia eram: Chans, Grupos do Facebook, e para o fim da década Grupos de Discord. Onde o status quo era: Ser homem, e de direita. Apenas depois da pandemia houve a entrada massiva de mulheres e esquerdistas no meio Otaku.

A correlação do Otakismo com o Bolsonarismo, já é antiga, surgiu em meados de 2017-2018, nos nossos Chans, e no Facebook, Bolsonaro inclusive em Tweets já fez referências a artes “Anime” feitas em homenagem a ele. Durante quase toda a campanha original de 2018 a grande maioria da comunidade Otaku, estava com nosso Presidente Jair Messias Bolsonaro. Enquanto a grande maioria dos turistas, mulheres e homossexuais obviamente estavam com o PT. Algo que se percebe pelo movimento “Ele não” é que na época, pouquíssimos Otakus aderiram ao movimento, e os que aderiram em sua maioria eram mulheres.

O Bolsonaro é contra o PT, assim como o Otaku é contra o turismo. O turismo cultural é, em sua essência, consubstancial ao petismo. Ambos têm um objetivo em comum, um inimigo em comum. O homem que rouba, um povo de sua cultura, um homem que toma o imaginário de alguém e o distorce, colocando suas falácias dentro do imaginário do povo. Tal como o Petista faz isso, o Turista faz o mesmo dentro da comunidade Otaku, pegando categorias Otaku, cultura Otaku, deliberações otaku, e roubando-as de sua essência, em prol do progressismo turista. o PT faz o mesmo com a cultura Brasileira, com o povo Brasileiro, em prol da chegada ao Socialismo. Tanto o turista quanto o petista, são igualmente vermífugos e prejudiciais à cultura.

O turista cultural é incapaz de receber uma tradição sem primeiro traduzi-la para as categorias ideológicas que já traz consigo; por isso, ao entrar numa comunidade, não a conhece: substitui-a por uma caricatura inteligível a ele. O petista, especialmente o petista “intelectual” gramsciano, opera do mesmo modo — com a diferença de que o faz deliberadamente.

E nisso surge o Otaku-Bolsonarista, o Otaku-Bolsonarista, é o homem que percebe que para derrotar os turistas, os esquerdistas, os sodomitas, é necessário unir a cultura Otaku ao Bolsonarismo, para gerar uma repulsa nos turistas, os filtrar. O Otaku patriota, ele há de ser Bolsonarista, não por causa necessariamente da competência de Jair, nem de Flávio, mas para proteger a beleza do moé. A beleza das Waifus, que estão perdendo seu valor, a Beleza de consumir Slice of Life sem julgamento, a beleza de não ter que fingir gostar de Shounen. A beleza de Deus, da pátria, da família, e do moé.

2. Dos princípios do Otaku-Bolsonarismo

Um movimento que sabe apenas aquilo que odeia está condenado a desaparecer junto de seus inimigos. O Otaku-Bolsonarismo não existe somente contra o turista; ele existe em favor de uma maneira determinada de viver e preservar a cultura otaku.

Nós devemos assegurar a existência da nossa cultura Otaku e um futuro para o Otakismo. Pois a beleza do moé não pode desaparecer da terra.

Agora, introduzo os 3 princípios do Otaku-Bolsonarismo

I — Amar a sua waifu. Não tratá-la como mero produto, estética descartável ou personagem da temporada, mas como expressão de afeição verdadeira pela obra e pelo imaginário que ela representa.

II — Lealdade ao Capitão Jair Messias Bolsonaro. O Otaku-Bolsonarista reconhece no Capitão o símbolo político da resistência ao petismo e à dissolução cultural que este manifesto combate.

III — Ser um otaku. Não basta consumir anime. É necessário pertencer à cultura, conhecê-la, cultivá-la e recebê-la como algo anterior a si próprio, em vez de entrar nela apenas para remodelá-la segundo modas externas.

3. Da massificação e da corrupção do imaginário Otaku

O anime não é apenas aquilo que passa em uma tela, nem se reduz às falas, ao desenho dos personagens ou à soma de seus elementos exteriores. O anime não se define por seus acidentes, mas por aquilo que é capaz de transmitir enquanto forma artística: beleza, melancolia, tristeza, felicidade, superação, amizade, amor e uma infinidade de outras categorias humanas filtradas por uma sensibilidade propriamente japonesa. Assim como a literatura, ele é capaz de nutrir o imaginário, acrescentar novas categorias à mente e permitir que experimentamos, ainda que indiretamente, realidades que nunca vivemos.

Dentro da própria cultura otaku existem formas ainda mais diretamente ligadas à imaginação. A light novel entrega ao leitor quase inteiramente a tarefa de formar mentalmente o mundo descrito; a visual novel, embora acrescente imagem, música e voz, conserva muito da intimidade e do ritmo da leitura; o mangá ocupa uma posição intermediária; e o anime, por oferecer já pronta grande parte da representação sensível, exige menos da imaginação do espectador. Isso não o torna inferior enquanto arte: apenas significa que cada meio nutre o imaginário por caminhos diferentes.

O problema começa quando essas obras deixam de ser vistas como obras e passam a ser vistas apenas como conteúdo. A massificação do otakismo criou um mercado no qual personagens, cenas e símbolos podem ser consumidos completamente separados das histórias que lhes davam significado. A personagem deixa de ser personagem e vira apenas uma estética; a obra deixa de ser experiência e vira catálogo; o fã deixa de procurar aquilo que o toca e passa a procurar aquilo que pode possuir, exibir ou reconhecer.

É sintomático que existam colecionadores de figures (Especialmente Mulheres que usam TikTok) que admitem comprar personagens apenas porque as consideram bonitas, sem sequer terem lido, jogado ou assistido à obra de que elas vieram. Não há problema em apreciar um objeto bonito; o problema aparece quando essa relação superficial passa a representar a própria cultura otaku. Nesse ponto, a figure já não é lembrança material de uma obra amada: a obra se torna apenas a propaganda da figure.

É essa inversão que a massificação corporativa incentiva. Não mais: “conheça uma obra, ame seus personagens e talvez deseje possuir algo que a recorde”, mas: “veja a personagem, deseje-a, compre-a, passe à próxima”. Consuma, consuma, consuma. A cultura deixa de produzir afeição e passa a produzir rotatividade.

A tentativa contemporânea de expulsar simbolicamente o lolicon da cultura otaku é, antes de tudo, uma falsificação de sua história. Lolicon, bishōjo e a estetização da juventude feminina fictícia não apareceram ontem como uma aberração marginal: estão entrelaçados à formação histórica do próprio imaginário otaku, e permanecendo presentes por décadas em mangás, animes, jogos e doujinshi.

O que mudou radicalmente não foi apenas a produção japonesa, mas o público que passou a recebê-la. Tropos, designs e piadas que há dez ou quinze anos circulavam com relativa normalidade dentro do fandom hoje frequentemente precisam ser expurgados, desculpados ou reinterpretados para satisfazer sensibilidades externas à subcultura. A “expulsão” do lolicon, portanto, é emblemática da transformação do otakismo em cultura de massa: primeiro entram novos públicos; depois esses públicos aplicam retrospectivamente seus próprios critérios à tradição que encontraram; por fim, aquilo que durante décadas pertenceu ao vocabulário normal da subcultura passa a ser apresentado como se jamais tivesse pertencido a ela.

4. Jair Messias Bolsonaro, o Capitão do Povo

Jair Messias Bolsonaro não entra no Otaku-Bolsonarismo apenas como político, mas como símbolo. O Capitão representa, para nós, a recusa em se curvar diante de um establishment cultural, midiático e político que por décadas pretendeu determinar aquilo que o brasileiro poderia pensar, admirar e defender. Sua importância para este movimento não depende da ideia absurda de que jamais tenha errado, nem de que toda decisão sua tenha sido perfeita. Ela decorre do papel histórico que desempenhou ao dar forma política a uma revolta que já existia difusamente na sociedade brasileira.

Não apenas o Capitão Jair, mas o Olavo, o Olavo teorizou, comprovou, estudou, o Olavo dá a base teórica, para a defesa do Otaku Bolsonarismo. Olavo foi o maior professor do século XXI nesse país. Sem Olavo, nós não teríamos uma direita. Olavo foi o que tornou o Bolsonarismo algo possível.

Bolsonaro como presidente é diferente de Bolsonaro como líder da direita. Bolsonaro pode ter sido um presidente moderado demais – até covarde em um certo aspecto. Mas foi nosso presidente, nosso mito, nosso Duce. Preso injustamente, por um golpe que sim, ele deveria ter cometido, mas foi um medroso e deixou de cometer. Um homem que se deixou ser julgado pelos seus inimigos. Bolsonaro não é um homem perfeito, mas não esperamos perfeição de Bolsonaro, nós devemos esperar a perfeição apenas de Nosso Senhor Jesus Cristo, Bolsonaro é um homem, logo não pode ser perfeito. Nós devemos lealdade a Jair Messias Bolsonaro, por ele ser um homem relativamente honesto dentro da política Brasileira.

Jair Messias Bolsonaro, é nosso líder, e acabou. Não há “Terceira-Via”. Se você for MBLista, Petista, qualquer coisa que não seja BOLSONARO, você não é de direita. Não por uma questão puramente ideológica: em teoria, você pode ser de direita; na prática, porém, não o é, pois ou você está com Bolsonaro, ou com o establishment, com o “sistema” com as oligarquias, com os caçiques, com os ianques.

Não pelo Bolsonaro carregar uma verdade absoluta, mas pela luta ser contra inimigos que detem o poder, na teoria você pode ser da mais extrema-direita, mas se você apoia qualquer um alem do Jair e prefere votar nulo a votar no Bolsonaro enquanto se diz de direita, você é tudo, menos direitista. Pois querendo ou não, Bolsonaro é a única saída que nós temos contra o PT. Bolsonaro é a representação da direita. Bolsonaro, carrega em suas costas o mais próximo que podemos chamar de direita brasileira.

5. O Turista Cultural: A antítese da Cultura

Chamo de turista aquele que, ao entrar em contato com a cultura japonesa, recusa-se a compreendê-la segundo seus próprios termos e exige que ela se adapte aos valores, categorias e sensibilidades que ele já possuía antes de conhecê-la. Ele não procura penetrar na obra; procura remodelá-la ad ipsam imaginem

Esse fenômeno não é intrínseco à esquerda ou à direita.

Existe, por exemplo, o turista de direita que afirma que o anime é intrinsecamente reacionário. Essa interpretação pode apreender fragmentos verdadeiros: determinadas obras preservam concepções tradicionais de família, dever, honra, hierarquia, sacrifício ou diferença entre os sexos. Mas transformar esses elementos numa definição universal do anime é reduzir uma tradição cultural extremamente heterogênea a uma categoria política ocidental.

Além disso, há uma contradição interessante: o anime, enquanto fenômeno artístico e industrial, é profundamente moderno. Sua linguagem, suas técnicas, sua circulação de massa e grande parte de sua história pertencem inequivocamente à modernidade. Ao mesmo tempo, certas obras podem carregar em sua essência temas, símbolos ou sensibilidades que parecem estranhos — e às vezes contrários — ao espírito moderno. Por isso, classificá-lo simplesmente como “reacionário” empobrece aquilo que se pretende compreender.

Há também o turista de esquerda, que realiza a operação inversa: projeta sobre as obras categorias políticas contemporâneas, transforma headcanons em cânone e interpreta personagens, relações e temas exclusivamente por meio de conceitos como representação, opressão, identidade ou emancipação. Às vezes, chega-se a apresentar o anime como se fosse essencialmente uma mídia progressista, feminista ou LGBT, independentemente da intenção autoral, do contexto japonês ou mesmo do conteúdo concreto da obra.

Os dois cometem, portanto, um erro semelhante: encontram no anime aquilo que já desejavam encontrar antes de assisti-lo.

O anime não é simplesmente reacionário nem simplesmente progressista. Ele comporta contradições. Pode apresentar uma mensagem profundamente tradicional ao lado de elementos esteticamente transgressivos; pode exibir vulgaridade e, poucos minutos depois, produzir uma imagem de extraordinária beleza; pode conter virtude, erotismo, sentimentalismo, niilismo, inocência, violência e transcendência.

É justamente por isso que ele resiste a uma redução ideológica simples.

O anime contém beleza e degradação, tradição e modernidade, ordem e excesso. Não é uma doutrina. É um abismo.

O anime é onde um reacionário, e um ultra progressista podem se encontrar, por motivos completamente diferentes.

O turista é aquele que acha que o anime está do lado dele.

6. Da natureza do Otaku-Bolsonarismo

O Otaku-Bolsonarismo não pretende ser uma teoria sobre aquilo que o anime é; pretende ser uma definição daquilo que nosso grupo é.

Nós somos otakus e somos bolsonaristas. Criamos uma comunidade que reúne essas duas pertenças. Isso não significa que o anime, enquanto forma artística ou manifestação da cultura japonesa, seja bolsonarista. Evidentemente, nenhum autor japonês como Jun Maeda estava pensando nas falas do então deputado Jair Messias Bolsonaro enquanto escrevia Clannad; a própria ideia seria cômica de tão absurda. O Otaku-Bolsonarista tem consciência disso.

Temos uma posição política independentemente do anime e pertencemos à cultura otaku independentemente dessa posição. Escolhemos reunir ambas numa mesma comunidade: nisso consiste o Otaku-Bolsonarismo.

O Otaku-Bolsonarista não precisa transformar cada obra que ama numa confirmação de suas opiniões políticas. Tampouco precisa abandonar sua identidade política para participar da cultura otaku. Ele quer poder discutir anime sem falsificá-lo e possuir suas convicções políticas sem fingir que elas estão escondidas em toda obra japonesa que consome.

Em termos simples: ele quer discutir anime e votar 22.

O Otaku-Bolsonarismo não afirma que o anime esteja do nosso lado. Afirma que nós, estando do nosso lado político, permanecemos otakus.

7. Da realidade e da Waifu

Minha waifu não existe. Por que, mesmo assim, sinto afeição por ela?

A waifu, enquanto pessoa concreta, é inexistente. Ela não habita o mesmo mundo que nós, não possui vontade independente fora da obra e evidentemente não pode estabelecer conosco uma relação recíproca.

Entretanto, a waifu existe enquanto personagem, enquanto categoria do imaginário e enquanto objeto de contemplação estética. E, acima de tudo, a afeição que sentimos por ela existe.

Tomemos como exemplo um otaku qualquer cuja waifu seja Haruhi Suzumiya.

Ele pode dizer: “Se Haruhi existisse, eu me casaria com ela” ou “Eu gosto e admiro profundamente a figura de Haruhi Suzumiya”. Pode pronunciar ambas as frases sem perder contato algum com a realidade, pois reconhece nelas uma hipótese e uma afeição dirigidas a uma personagem fictícia.

Outra coisa seria afirmar, literalmente e como fato do mundo: “Casei-me com Haruhi Suzumiya; ela é de fato minha esposa.” Nesse momento já não estaríamos falando da linguagem afetiva normal do otakismo, mas da confusão entre o imaginário e o real.

Reconhecer essa distinção, porém, não destrói o valor da waifu. Pelo contrário: permite compreender corretamente aquilo que ela representa.

Um paralelo pode ser encontrado nas antigas cantigas de amor galego-portuguesas.

Nelas, o trovador frequentemente se coloca abaixo de sua senhor. Ele a serve, permanece-lhe fiel, sofre pela distância que os separa e reconhece nela um objeto de amor que não pode simplesmente possuir. Da transposição das relações feudais para o domínio amoroso nasce aquilo que chamamos de vassalagem amorosa.

Creio que essa seja uma das melhores analogias para compreender a verdadeira relação do homem com sua waifu.

Primeiramente, há a fidelidade.

A personagem verdadeiramente amada não deveria ser apenas a “waifu da temporada”, consumida durante alguns meses e abandonada assim que aparece uma nova personagem mais atraente. Isso não é afeição: é rotatividade. É aplicar ao imaginário a mesma lógica que aplicamos às mercadorias.

Amar uma waifu significa que aquilo que encontramos nela permanece conosco depois que os episódios acabam, depois que fechamos a visual novel, depois que a temporada deixa de ser assunto e o restante da internet já partiu para a próxima novidade.

A fidelidade não exige que nunca apreciemos outra personagem. Exige apenas que aquilo que amamos não se torne descartável.

Em segundo lugar, há a não-posse.

O consumidor pergunta: “O que esta personagem pode me proporcionar?”

O amante pergunta: “O que encontrei nela para que continue retornando a ela?”

A vassalagem amorosa inverte, portanto, a lógica da posse. A senhor não existe simplesmente para satisfazer o trovador. Ele reconhece nela algo diante do qual sua atitude não é primeiramente consumir, mas admirar.

Evidentemente, nenhuma waifu pode literalmente ordenar serviço algum a seu admirador. O serviço deve ser compreendido analogicamente: trata-se da fidelidade àquilo que nela foi amado. Se nela encontramos coragem, ternura, beleza, inteligência, pureza, força ou alguma outra qualidade digna de admiração, não fazemos justiça à personagem quando a reduzimos a um objeto descartável de satisfação.

O consumidor quer possuir.

O amante aceita que aquilo que ama não lhe pertence.

Em terceiro lugar, existe a distância.

Nas cantigas, a distância entre o trovador e sua senhor pode ser social, física ou amorosa.

Entre o otaku e a waifu, contudo, existe uma distância ainda maior: uma distância ontológica.

A senhor do trovador poderia, pelo menos em princípio, encontrá-lo. Poderia ouvi-lo, rejeitá-lo ou corresponder-lhe. A waifu não pode fazer nenhuma dessas coisas. Ela pertence à ficção. Não existe possibilidade factual de reciprocidade.

Essa distância não é um pequeno inconveniente que algum avanço tecnológico deverá solucionar. Ela pertence à própria natureza da relação.

O otaku lúcido não precisa destruí-la.

Ele pode simplesmente reconhecê-la.

Daí nasce uma espécie particular de coita.

O trovador sofre porque ama aquilo que está distante. O otaku experimenta uma melancolia ainda mais estranha: pode conhecer uma personagem profundamente enquanto sabe que jamais poderá ser conhecido por ela.

Podemos assistir novamente à obra, ouvir sua voz, recordar suas falas, contemplar sua imagem e permitir que determinada personagem permaneça conosco durante anos. Ela pode estar associada a períodos inteiros de nossa vida.

Mas ela jamais saberá nosso nome.

Há algo necessariamente melancólico nisso.

E ainda assim, a impossibilidade de reciprocidade não torna falsa a afeição. Apenas determina sua natureza.

É neste ponto que encontramos Dom Quixote e Dulcineia.

Dulcineia ensina tanto o valor quanto o perigo da waifu.

Dom Quixote necessita de uma dama porque um cavaleiro necessita de algo superior a si em nome do qual possa agir. Dulcineia torna-se, em seu imaginário, concentração de beleza, honra e perfeição. Não importa apenas a mulher concreta que está por trás de seu nome: importa aquilo que ela passa a representar para o cavaleiro.

É precisamente aí que compreendemos o valor do ideal.

O homem sempre foi capaz de encontrar numa figura particular algo que aponta para além dela mesma. Uma personagem pode condensar determinada forma de beleza ou determinada virtude de maneira tão intensa que passa a ocupar permanentemente um lugar em nosso imaginário.

Mas Quixote também nos ensina o perigo.

O ideal deixa de elevar o homem no momento em que começa a substituir a realidade.

Não há erro em possuir uma Dulcineia no imaginário. O erro começa quando somos incapazes de reconhecer Aldonza como Aldonza, o moinho como moinho e a ficção como ficção.

Por isso, a relação do otaku com sua waifu deve possuir também mesura.

Ele deve saber aquilo que ama e, igualmente, aquilo que não possui.

Pode admirar o ideal sem exigir que toda mulher real corresponda perfeitamente a ele. Pode sentir afeição sem inventar reciprocidade. Pode conservar uma personagem durante toda a vida em seu imaginário sem precisar fingir que ela habita materialmente o mundo.

A verdadeira afeição pela waifu não exige a destruição da realidade.

Exige justamente consciência dela.

A waifu não precisa existir como mulher concreta para ocupar um lugar verdadeiro no imaginário daquele que a ama.

Dulcineia permanece Dulcineia.

O moinho permanece moinho.

E o cavaleiro, sabendo a diferença entre ambos, ainda pode cavalgar.

A waifu pode ser para o otaku aquilo que Dulcinéia é para o cavaleiro enquanto ideal; não deve, porém, produzir nele o erro de Dom Quixote diante da realidade.

Dulcineia ensina tanto o valor quanto o perigo da waifu.

8. Da prática do Otaku-Bolsonarista

Um movimento que pretende preservar uma cultura deve ser capaz de produzir alguma coisa além de inimigos.

Não devemos sair batendo em petistas. Não devemos sair batendo em progressistas, turistas, MBListas ou qualquer outra pessoa simplesmente porque ela tem retardo mental, ou é burra. O combate do Otaku-Bolsonarista deve ser, antes de tudo, cultural.

Se consideramos falsa determinada interpretação de uma obra, devemos escrever uma interpretação melhor. Se acreditamos que a história do otakismo está sendo esquecida, devemos registrá-la. Se determinadas obras estão desaparecendo, devemos preservá-las. Se o debate está intelectualmente empobrecido, devemos estudar o suficiente para elevá-lo.

Não basta reclamar do turista.

É necessário tornar-se mais culto que ele.

Por isso, o Otaku-Bolsonarista deve estudar.

Deve procurar formação filosófica, histórica, literária e religiosa suficiente para que suas opiniões não sejam apenas reflexos de memes, vídeos curtos e palavras de ordem. Entre as fontes que eu considero importante está a obra de Olavo de Carvalho e, para aqueles que desejarem estudá-la sistematicamente, o Curso Online de Filosofia.

Mas estudar Olavo não significa decorar frases de Olavo.

Estudar significa adquirir instrumentos que permitam observar a realidade, formular perguntas, distinguir aquilo que sabemos daquilo que apenas repetimos e, sobretudo, reconhecer quando estamos errados.

Se terminarmos nossos estudos apenas sabendo citar o professor, mas incapazes de pensar diante de um problema novo, teremos fracassado.

Ao mesmo tempo, nossa formação não pode abandonar aquilo que nos tornou otakus.

Devemos assistir anime.

Devemos ler mangás.

Devemos ler light novels.

Devemos ler visual novels.

E devemos fazê-lo não como quem percorre uma lista para aumentar um número no perfil, mas como quem procura conhecer obras.

Uma visual novel não deve ser reduzida a suas CGs. Um anime não deve ser reduzido aos cortes que circulam no TikTok. Uma personagem não deve ser reduzida à figure que podemos colocar numa estante. Uma obra deve ser encontrada em sua totalidade, com seu ritmo, suas virtudes, seus defeitos e seu contexto.

Devemos também escrever sobre aquilo que encontramos.

Resenhas, ensaios, interpretações, traduções, arquivos, discussões, recomendações e registros são formas pelas quais uma cultura mantém memória de si mesma.

Aquele que realmente acredita que o otakismo merece continuar existindo não pode limitar sua atuação a dizer que antigamente tudo era melhor.

Preservar significa trabalhar.

Devemos guardar aquilo que pode desaparecer: antigos sites, fóruns, traduções, fansubs, textos, discussões, memes, registros de comunidades e obras que já não circulam com facilidade. Não porque tudo aquilo que é antigo seja necessariamente bom, mas porque uma comunidade incapaz de lembrar sua própria história torna-se vulnerável a qualquer pessoa que pretenda reescrevê-la.

Devemos também mostrar que existimos.

Não pela intimidação.

Não pela violência.

Não transformando cada conversa sobre anime numa discussão política.

Mas simplesmente recusando a ideia de que determinadas combinações de gostos, crenças e posições tenham de permanecer escondidas para serem toleradas.

Existir publicamente também é produzir.

É escrever.

É estudar.

É discutir.

É arquivar.

É recomendar uma obra que merece ser conhecida.

É terminar uma visual novel de cinquenta horas quando seria muito mais fácil assistir a vinte clipes dela.

É ler aquilo que nossos adversários realmente escreveram antes de respondê-los.

É conhecer aquilo que afirmamos defender.

O Otaku-Bolsonarista não preservará o otakismo apenas combatendo aquilo que considera sua corrupção.

Preservará o otakismo tornando-se digno de transmiti-lo.

Portanto, antes de procurar uma guerra cultural todos os dias, façamos algo mais difícil:

Estudemos mais.

Leiamos mais.

Escrevamos mais.

Assistamos melhores obras.

Preservemos aquilo que recebemos.

E deixemos alguma coisa para aqueles que virão depois de nós.

9. Conclusão

Chegamos, portanto, ao fim.

O Otaku-Bolsonarismo nasceu de uma percepção simples: é possível pertencer profundamente à cultura otaku e, ao mesmo tempo, possuir convicções políticas próprias, sem que uma dessas coisas precise falsificar a outra.

O anime não está do nosso lado.

Ele não está necessariamente contra nós.

Ele simplesmente é.

Há nele beleza e vulgaridade, tradição e modernidade, ordem e excesso, inocência e decadência. Há obras que confirmarão algumas de nossas intuições e outras que as contradirão completamente. O dever daquele que verdadeiramente ama uma cultura não é obrigá-la a concordar consigo, mas conhecê-la suficientemente para permitir que ela fale por si mesma.

Foi por isso que definimos o turista não simplesmente como aquele que chegou depois, nem como aquele que possui determinada opinião política, mas como aquele que entra numa cultura incapaz de recebê-la antes de julgá-la. Ele olha para a obra e encontra apenas aquilo que já carregava dentro de si.

Não queremos cometer o mesmo erro.

Podemos possuir nossos símbolos, nossos afetos, nossas convicções e nossas comunidades sem precisar fingir que cada anime japonês foi criado para confirmá-los.

Do mesmo modo, reconhecer a realidade não exige abandonar o imaginário.

A waifu não existe como pessoa concreta, mas aquilo que encontramos nela pode ocupar verdadeiramente nosso imaginário. Podemos conservar Dulcineia sem transformar o moinho em gigante. Podemos reconhecer a distância entre ideal e realidade sem destruir nenhum dos dois.

Talvez seja justamente nisso que exista algo de quixotesco em nós.

Não na obrigação de ver gigantes onde existem moinhos, mas na disposição de continuar cavalgando depois de reconhecer que são moinhos.

Há coisas que permanecem dignas de amor mesmo quando o mundo as considera pequenas ou ridículas.

Há obras que merecem ser lidas lentamente.

Há personagens que merecem ser lembradas depois que a temporada termina.

Há visual novels que merecem cinquenta, cem horas de nossa atenção.

Há antigas comunidades, traduções, fóruns, textos e memórias que merecem ser preservados.

E há uma cultura que não pode sobreviver apenas por meio da nostalgia daqueles que dizem que tudo era melhor antigamente.

Se desejamos preservá-la, devemos trabalhar.

Devemos estudar.

Devemos ler.

Devemos escrever.

Devemos assistir às obras.

Devemos discutir aquilo que elas realmente dizem, inclusive quando não gostamos da resposta.

Não devemos agredir aqueles que discordam de nós. Uma cultura não demonstra sua força batendo em seus adversários, mas produzindo coisas que sobrevivam a eles.

Por isso, nosso dever não é apenas destruir pessoas.

É produzir cultura.

É formar o imaginário.

É conservar memória.

É transmitir aquilo que recebemos.

Talvez daqui a décadas ninguém se lembre das pequenas guerras de internet que pareciam tão importantes no momento em que aconteceram. Perfis desaparecerão, redes sociais morrerão, memes perderão o contexto e discussões que consumiram milhares de horas serão esquecidas.

As obras, porém, podem permanecer.

E aquilo que elas fizeram conosco também.

Por isso não basta dizer que somos otakus.

É necessário conhecer aquilo que afirmamos amar.

Não basta dizer que defendemos uma cultura.

É necessário preservá-la.

Não basta possuir um ideal.

É necessário submetê-lo à realidade.

E não basta encontrar beleza.

É necessário ser capaz de reconhecê-la, amá-la e transmiti-la sem destruí-la no processo.

O turista pergunta constantemente de que lado o anime está.

Nós devemos aprender a fazer uma pergunta anterior:

O que a obra realmente é?

Depois disso, cada homem poderá responder por si mesmo o que fará com aquilo que encontrou.

O moinho continuará sendo moinho.

Dulcineia continuará no imaginário.

A obra continuará sendo a obra.

E nós continuaremos cavalgando.